
Uma análise ao sangue pode diagnosticar Alzheimer
Uma análise de sangue, combinada com um material ultrafino derivado da grafite, poderá fazer avançar significativamente os esforços levados a cabo para detetar a doença de Alzheimer na sua fase mais precoce, mesmo antes de os sintomas aparecerem.
A doença de Alzheimer é a forma mais comum de demência. Para milhões de europeus – e para os serviços de saúde que lhes prestam cuidados – esta doença é uma bomba-relógio, que continua sem ter cura. Mas um grupo de investigadores financiados pela UE está a desenvolver uma ferramenta simples que permite a deteção numa fase muito mais precoce, potencialmente décadas antes do aparecimento dos primeiros sintomas.
A deteção precoce é importante porque o tratamento é mais eficaz quando iniciado o mais cedo possível. Permite às pessoas retardarem a progressão da doença e planearem o seu futuro. Atualmente, vivem na Europa cerca de sete milhões de pessoas com a doença de Alzheimer, um número deverá duplicar até 2030, segundo o Conselho Europeu do Cérebro.
Segundo o médico Aristeidis Bakandritsos, para que a doença de Alzheimer seja detetada suficientemente cedo para que tal faça uma verdadeira diferença, os testes devem tornar-se mais simples, mais baratos e muito menos invasivos. “A deteção precoce só será realista para as pessoas quando for pouco dispendiosa para os serviços de saúde e indolor e simples para o doente, o que não é o caso atualmente”, afirmou o investigador sénior do Instituto Checo de Investigação e Tecnologia Avançadas (CATRIN), que faz parte da Universidade Palacký de Olomouc, na Chéquia.
Rumo a um rastreio de rotina
Aristeidis Bakandritsos coordena atualmente uma iniciativa de investigação de quatro anos financiada pela UE, lançada em outubro de 2023, que visa transformar a forma como a doença de Alzheimer é detetada. Designado 2D-BioPAD, o projeto visa desenvolver um dispositivo a preços acessíveis que seja capaz de identificar até cinco proteínas associadas à doença de Alzheimer – os biomarcadores – a partir de uma simples amostra de sangue.
O objetivo não é substituir os métodos de diagnóstico existentes, como a ressonância magnética cranioencefálica ou a punção lombar, mas permitir um rastreio muito mais precoce em contextos de cuidados de saúde primários. Ao identificarem as pessoas em risco antes de os sintomas aparecerem, os médicos podem intervir mais cedo, altura em que os tratamentos são mais eficazes.
Estão atualmente a ser realizados estudos clínicos piloto na Finlândia, na Grécia e na Alemanha, para avaliar o desempenho da ferramenta, bem como as suas implicações éticas e de segurança, e a forma como a ferramenta poderia ser integrada nos cuidados de saúde primários.
De testes invasivos a uma simples amostra de sangue
O diagnóstico da doença de Alzheimer continua a ser complexo e muitas vezes invasivo. Atualmente, a confirmação do diagnóstico necessita, em geral, de imagiologia cerebral ou de uma punção lombar para analisar o líquido cefalorraquidiano – um líquido que envolve o cérebro e a medula espinal e que tem um papel protetor. Embora estejam a começar a surgir testes de sangue, estão ainda circunscritos, em grande medida, a clínicas da memória especializadas.
A equipa 2D-BioPAD pretende mudar esta situação. Esta equipa tem por objetivo utilizar um teste de sangue mais rápido, mais barato e muito menos invasivo que poderá vir a ser utilizado nos sistemas de saúde primários.
Se este teste for bem-sucedido, os médicos de família poderão identificar muito mais cedo as pessoas que se encontram em risco, muito antes de a perda de memória e de a confusão se terem tornado óbvias.
O tratamento precoce é fundamental
Até há pouco tempo, as opções de tratamento centravam-se sobretudo na gestão dos sintomas. Esta situação mudou em 2025, quando a UE aprovou as duas primeiras terapias modificadoras da doença de Alzheimer.
Estes medicamentos visam as placas de proteína beta-amiloide, fragmentos de proteínas que se acumulam entre as células cerebrais e interferem com a comunicação. Mais importante ainda, os medicamentos funcionam melhor nas fases iniciais da doença, o que torna o diagnóstico atempado mais importante do que nunca.
Vincent Bouchiat, diretor executivo e cofundador da Grapheal SAS, um parceiro de projeto especializado em tecnologias de cuidados de saúde baseadas no grafeno, reconhece a complexidade ética da deteção precoce, mas chama a atenção para as suas vantagens.
«Existem boas razões para se ficar a saber que se pode vir a desenvolver demência. Os novos medicamentos para o tratamento da doença de Alzheimer dão sinais promissores de que poderão retardar a progressão da doença, o que é obviamente um enorme passo em frente.»
De que forma o grafeno permite realizar ensaios mais inteligentes
O elemento central do dispositivo 2D-BioPAD é o grafeno – uma camada mono-atómica de carbono que é mais resistente do que uma folha de aço da mesma espessura, e um excelente condutor de eletricidade.
Quando as proteínas associadas à doença de Alzheimer se fixam à superfície do grafeno, alteram de forma subtil o modo como a eletricidade é conduzida por esse material. Estas alterações podem, em princípio, ser detetadas com uma sensibilidade extraordinária, levando os investigadores a aproveitar esta possibilidade para detetar biomarcadores presentes em concentrações extremamente baixas.
O dispositivo previsto pode oferecer várias vantagens em relação às análises de sangue laboratoriais que estão atualmente a entrar no mercado: obtêm-se os resultados em cerca de 30 minutos, as análises são realizadas em contextos de cuidados de saúde primários, é efetuada a deteção de vários biomarcadores ao mesmo tempo e com custos significativamente mais baixos.
O projeto reúne 11 parceiros de 8 países europeus, combinando conhecimentos especializados em nanotecnologia, investigação clínica e inovação digital.
Até ao final de 2026, os investigadores esperam ficar a saber como funciona esta tecnologia em comparação com o equipamento de laboratório existente.
Se os resultados forem positivos, a equipa espera conseguir obter mais financiamento para poder avançar para a fase de comercialização graças a ensaios adicionais, à validação e a aprovações regulamentares. Os investigadores estão confiantes de que o teste possa vir a ser utilizado de forma corrente dentro de apenas cinco anos.
Introdução dos testes nos cuidados de saúde primários
A visão a longo prazo prevê a realização de um rastreio simples e portátil que se enquadre facilmente nos cuidados de saúde primários. Uma pequena amostra de sangue semelhante à necessária para um teste da diabetes seria inserida num dispositivo compacto ligado a um tablet ou a um telemóvel.
Em vez de se obter uma resposta “sim ou não”, os médicos receberiam a concentração dos biomarcadores relevantes, o que lhes permitiria decidir se são necessários mais testes. Utilizado dessa forma, o dispositivo funcionaria como um sistema de alerta precoce e não como um diagnóstico isolado.
O teste funciona um pouco como os testes rápidos de fluxo lateral, conhecidos da pandemia de covid-19, mas com um poder analítico muito maior. A medição simultânea de vários biomarcadores melhora significativamente a fiabilidade em relação aos testes de marcadores únicos.
A Inteligência Artifical (IA) também desempenha um papel fundamental. Graças à IA e à aprendizagem automática, são criadas as minúsculas “sondas” moleculares que detetam as proteínas associadas à doença de Alzheimer, otimizando-as através de simulações rápidas baseadas em bases de dados proteicas e em modelos moleculares.
Solução a preços acessíveis para um problema mundial
O custo constitui um obstáculo importante a um rastreio generalizado. Atualmente, os testes laboratoriais podem custar 40 EUR ou mais por biomarcador, ao passo que o equipamento necessário pode atingir centenas de milhares de euros.
Graças ao sistema 2D-BioPAD é possível reduzir drasticamente esses custos, combinando um dispositivo de deteção de baixo custo com cartuchos descartáveis que testam vários biomarcadores de uma só vez.
Jean Georges, diretor-executivo da Alzheimer Europe, uma rede pan-europeia de associações nacionais para pessoas com demência, encara estes avanços como fazendo parte de uma mudança mais vasta, passando de uma abordagem exclusivamente centrada no tratamento para a melhoria da deteção precoce e a redução dos riscos.
“Esperamos que, em última análise, esta mudança acabe por beneficiar não só as pessoas que se encontram nas fases iniciais da doença de Alzheimer, mas também as pessoas sem problemas cognitivos conhecidos”
Ao mesmo tempo, salienta a necessidade de honestidade e de compaixão. Nenhum teste pode prever exatamente quem irá desenvolver demência ou de que forma irá evoluir.
“A previsão do risco de demência tem implicações éticas, jurídicas e sociais»,
afirmou Jean Georges. «A divulgação do diagnóstico deve ser sempre abordada de forma aberta, honesta, empática e compassiva.”
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Fonte:https://www.jn.pt/inovacao/artigo/uma-analise-ao-sangue-pode-diagnosticar-o-alzheimer/18064945
