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Não é modéstia, nem mistério cultivado. A ciência comportamental tem uma explicação que muda completamente a forma como se pensa em ambição e exposição.

Porque é que os mais bem-sucedidos raramente falam do que fazem?

Porque é que os mais bem-sucedidos raramente falam do que fazem?

Há um padrão que qualquer pessoa que preste atenção ao comportamento das pessoas mais realizadas à sua volta eventualmente nota: os que mais avançaram profissionalmente são, com frequência, os que menos falam sobre onde estão a ir. Não os que mais partilham, não os que mais anunciam, não os que mais documentam o processo nas redes sociais. Os que calam. O silêncio parece contrário à lógica de uma era em que visibilidade e sucesso são tratados como sinónimos. Não é.

A investigação que mais claramente documenta este fenómeno vem de um estudo do psicólogo Peter Gollwitzer, da Universidade de Nova Iorque, publicado em 2009 na revista Psychological Science com os co-autores Paschal Sheeran, Verena Michalski e Andrea Seifert. A hipótese testada era simples: o que acontece quando se fala sobre um objetivo antes de o atingir. A conclusão foi perturbadora para qualquer um que já tenha anunciado um projeto antes de o começar. Falar sobre um objetivo cria no cérebro uma satisfação simbólica que reduz a motivação para o atingir efetivamente. O reconhecimento social antecipado, os parabéns pela intenção, o elogio pelo plano, ativa os mesmos circuitos de recompensa que o reconhecimento pelo resultado. O cérebro, pragmático e impreciso em simultâneo, regista parte do trabalho como feito antes de ele existir.

O mecanismo tem nome na literatura científica: “realidade social”. Quando um objetivo é partilhado e recebido com reconhecimento, torna-se socialmente real antes de ser factualmente real. Essa realidade social satisfaz parcialmente a necessidade de completude que seria o motor da ação. A pessoa fica, em sentido estrito, menos faminta pelo resultado do que estava antes de o anunciar.

As redes sociais criaram uma infraestrutura perfeita para este fenómeno. A lógica das plataformas favorece a partilha de intenções, processos e aspirações porque esse conteúdo gera engagement imediato, comentários encorajadores, reações positivas, que recompensam o comportamento de partilha independentemente do resultado que eventualmente segue. Anunciar que se vai escrever um livro gera mais interação imediata do que publicar em silêncio durante dois anos e aparecer com o manuscrito terminado. A plataforma não distingue entre os dois. O cérebro distingue, e tira conclusões que prejudicam o segundo em favor do primeiro.

Os que entendem isto, consciente ou intuitivamente, protegem os seus objetivos do reconhecimento prematuro com a mesma lógica com que se protege um investimento de especulação prematura. O trabalho acontece em privado. O resultado aparece quando está pronto. A narrativa do processo é construída retroativamente, quando já existe processo suficiente para ser narrado com substância. Trata-se da proteção da motivação contra o seu próprio inimigo mais eficaz: a satisfação antecipada.

Existe uma segunda razão, menos documentada mas igualmente relevante, para o silêncio das pessoas que avançam: a exposição prematura de um projeto cria crítica prematura. Uma ideia partilhada antes de estar desenvolvida é vulnerável a objeções que uma ideia madura absorve sem dificuldade. O feedback externo sobre um trabalho em estado inicial raramente é construtivo no sentido útil, porque o interlocutor não tem contexto suficiente para avaliar o que existe mas contexto suficiente para apontar o que falta. A pessoa que ouve a crítica absorve-a num momento em que a confiança no projeto é ainda frágil, o que pode ser suficiente para travar algo que com mais tempo teria resistido.

A visibilidade tem valor. Tem o valor certo quando o trabalho está feito e o resultado existe para ser mostrado. Antes disso, é uma forma de pagar antecipadamente por algo que ainda não se possui, com uma moeda que não se recupera depois.

O silêncio das pessoas que avançam não é ausência de ambição, mas sim uma condição de funcionamento.

fonte:https://sapo.pt/artigo/porque-e-que-as-pessoas-mais-bem-sucedidas-raramente-falam-do-que-fazem-69e081d6d3b5a706b3cf3ffb

Foto: designedbyfreepik

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